domingo, 8 de março de 2009

Minha versão sobre o braço direito do Rato

Quando vimos o caminhão, que estava ligado, parado e o motorista conversando com outro motorista de um carro ao lado, fechando a rua, tenho a certeza que pensamos na mesma coisa na mesma hora. Mas claro que eu não levei a sério.
O R sim.
Ele me disse que iria passar por baixo. E foi andando na frente. Deu-me suas sacolas com filmes e ficou apenas com a sacola da pizza que acabara de comprar pra jantar.
Andou e andou e andou...rápido, enquanto eu ia atrás dizendo “Pára, R ! Tu é louco”
Quando vi... o R se meteu embaixo do caminhão!!
E eu “Pronto!Nada mais me assusta nesse mundo.”
De repente, o caminhão faz “tisssssssss...” Tomo um enorme susto e o R se acaba lá embaixo. Cai.
Demos a volta no caminhão para nos encontrar do outro lado. Eu, a perplexidade em pessoa. R rindo loucamente, dizendo que seu braço tinha saído do lugar. Eu, a perplexidade em pessoa.
Não acreditei...achei meio improvável esse desfecho, embora ele tenha realmente caído. Então R foi andando na frente rapidamente rumo ao Hospital mais próximo dizendo repetidas vezes que seu braço tinha saído do lugar, “me segue, me segue...” foi quando eu acreditei. Eu, a perplexidade em pessoa.
Vou me poupar de contar o que ocorreu nos próximos 30 minutos. Se quiserem saber, tudo está no BlogSpot do R. Perdão.
Já na maca, diazepam* na veio do R. Não esperava por isso. O objetivo era dopá-lo para não sentir dor enquanto o médico colocaria seu membro de volta no lugar.
R começa então delirar, no sentido mais literal da palavra. Eu, a perplexidade em pessoa, lá, desesperadinha, olhando os primeiros desatinos dele, perguntando aos enfermeiros se aquilo era normal.
R falou:
1. “Rata?!!” (Muito alto – eu confesso que fiquei com vergonha =P )
2. “Tchubaruba”
3. “kkkkkkkkk”
4. “sghdfsgksd”
5. “Ghrrrrrrr!”
6. “Mãe, te amo...te amo muito.
7. “Me dá um beijo.”
8.Etc.
Ele revirava os olhos, apertando as mãos, com seu bracinho fora do lugar, coitadinho do meu R.
A Mãe do Rato chegou (ligamos pra ela) na nossa salinha junto com minha irmã tão de repente, que não lembro de ter sentido um alívio tão grande como esse alguma vez na vida. Ela normalmente tem uma voz meio chorosa. Então multiplica essa voz por 10 e imagina ela dizendo: “O que aconteceu, Rata?”. Isso deu um ar mais dramático à ocasião. Titubeei por um segundo, mas contei toda a verdade. Ao contar, senti vontadezinha de chorar. Mas não.
Mãe de Rato voltou pra casa, mas iria retornar novamente ao hospíc...hospital.
Eu lá, ainda a perplexidade em pessoa, ouvindo tudo, vendo tudo. Curiosos enfermos e visitantes das outras salas vinham ver o garoto do braço fora do lugar. E eu ria para eles e logo fechava a expressão. Ora, não tinha nenhum elefante ali.
Ficava sozinha com Rato algumas vezes. Na verdade, havia um senhor moreno, tatuado, sozinho e infeliz na maca ao lado. Ele não falava nada. E nem olhava para nós. Devia estar sofrendo com alguma dor.
Rato voltando à sanidade aos poucos, perguntou cerca de 15 vezes se seu braço já estava no lugar. E se podia escreve e teclar. E realmente já estava. O objetivo foi alcançado.
Na 15ª vez, quando ele perguntou sobre o braço, o senhor moreno, tatuado, sozinho e infeliz na maca ao lado sorriu. E eu também. Aí R me perguntava se ele iria ficar bem e se sua dor iria passar. Adivinha quem respondeu ao R? O senhor moreno, tatuado, sozinho e infeliz na maca ao lado. Disse que sim, que a dor iria passar logo. R retribuiu esse gesto de uma maneira nunca antes vista e tampouco imaginada por mim: olhou pra ele, abriu um enorme sorriso e fez com a mão o gesto de legal. R é incapaz de fazer isso para qualquer pessoa. Ele nunca fez isso pra mim, que também sou uma Rato.
Sabe, há pessoas são esquecidas pelas outras pessoas, seja qual for o momento. Até quando estão sofrendo de dor física. Foi a sensação que tive enquanto passei alguns minutos no hospital, olhando as pessoas que estava ali. Depois me fechei no moreno, tatuado, sozinho e infeliz na maca ao lado. Ele não tinha ninguém. E estava sofrendo. Sua aparência era pesada, do tipo que não o aceitam em qualquer lugar, do tipo que é excluído, do tipo que sofre. Mas foi o único que disse algo sincero que transformou o ambiente horrivelmente pesado e triste em um sorriso lindo.

*O diazepam é um benzodiazepínico, que são substâncias que exercem seus efeitos farmacológicos, como sedação, relaxamento muscular, anticonvulsivantes, ansiolíticos e amnésia anterógrada.

3 comentários:

BarelyEly disse...

égua, eu amo demais tua narrativa, de vez em quando venho aqui e leio. há trechos maravilhosos.

Lyca disse...

Tu o dizes?

BarelyEly disse...

super o digo.